• O Violoncelo

    Chorai arcadas
    Do violoncelo!
    Convulsionadas, Pontes aladas
    De pesadelo…
    De que esvoaçam,
    Brancos, os arcos…
    Por baixo passam,
    Se despedaçam,
    No rio, os barcos.
    Fundas, soluçam
    Caudais de choro…
    Que ruínas, (ouçam)!
    Se se debruçam,
    Que sorvedouro!…
    Trêmulos astros,
    Soidões lacustres…
    Lemes e mastros…
    E os alabastros

    Dos balaústres!
    Urnas quebradas!
    Blocos de gelo…
    Chorai arcadas,
    Despedaçadas,
    Do violoncelo.

    Camilo Pessanha, in ‘Clepsidra’

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    #metrô #subway #barrafunda #tvminuto Mais um pouco e seremos nós a apagar as luzes mas vamos lá #clubedafé #comoeuteamotricolor #morumbi

Dois dias, um concerto – por David Joseph Sousa

É de manhã. Ou apenas o que resta dela. Acordo e a resposta que tenho para mim é um sorriso. Um daqueles bem feliz, ontem foi dia de ver Caetano e Gil. A esta hora o Mocho ainda deve estar a servir cachorros com meias de leite, os gigantes já devem estar num privet jet, back in Bahia e estou sozinho com o meu sorriso e a lembrança do dia anterior, que venho – desafiado por meu parceiro – descrever neste texto.

Meu amigo Gabriel é nada mais que um companheiro de vida, que veio do sampa para acrescentar cor à nossa existência nesta terra passageira. Em apenas um ano de amizade e convívio nossas aventuras já acumulam histórias para contar mas não vim aqui escrever sobre a amizade que o casal Borges e nós cultivamos, pois seria necessário recorrer ao esotérico para compreender tal ligação. Venho falar sobre o desafio lançado: Vamos ver o show de Veloso&Gilberto?

Desde que (para mim) o samba é samba, o nome de Caetano é um farol na minha conceção. Com ele descobri que a poesia tem um ritmo e uma cor e, essa cor canta-se em português do brasil. Cada vez que ouço é come prima vez que descubro beleza na nossa língua. Como se me dissesse ao ouvido: – Eu vim da bahia para te mostrar como a poesia pode ser ritmo e som e como pode ser bela.

Já para o Gabriel, Gilberto Gil é seu arcanjo pessoal na música, seu one direction, qual superhomem com poderes melódicos, qual são joão xangó menino com guitarra no colo. Estavam os dados lançados e os bilhetes comprados.

Dia do concerto.

Outro acordar e outro sorriso, desta vez de espetativa. Ligo o sistema de som e ponho a “bater” meu coração vagabundo esperando a hora do arranque. Direcção: Lisboa. O expresso 2222 estava de serviço e pela marginalia II seguimos rumo a sul. No carro a banda sonora que se esperava antecipando o concerto. Percebi um novo sentido do Drão, e a importância de andar com fé. Carro estacionado – (avisa lá) nossa gente que chegamos bem, vamos jantar e procurar um lugar bem na frente para poder cantar como nine out of ten cada música que ecoar daquele palco. A noite estava fresca e la luna llena iluminava o recinto.

E por fim o momento chegou. Forom duas horas de emoção, de magia em palco. Cada Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré, todos os Iansã, Iemanjá, Oxossi, cada Mercador, Cavaleiro de Bagdá, Filhos de Obá desceram áquele pequeno palco, não para ver os filhos de gandhi mas para iluminar aqueles dois seres e os fazerem transbordar boa música. Já Carmen Miranda perguntava o que é que a baiana tem? Não sei se toda a menina baiana tem um samba, mas aqueles dois seres tem samba de sobra!

Voltamos radiantes, cheios de tropicalia no olhar. Com a sensação de dever cumprido. Odeio os finais, mas este traz um sorriso.

Se eu quissese (ou pudesse) falar com Deus e agradecer-lhe a magia que brotou daquele palco, na noite de 31 de julho, usando apenas três palavras, seriam: é luxo só.

P.S.: assim (não) tenho medo da morte.

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Meu One Direction

E agora você (eu) se pergunta, será que este mequetréfico blog voltou com tudo? Será que agora teremos um turbilhão e meio de postagens para recuperar os anos perdidos? O gigante acordou?

Não.

Digo, provavelmente não, mas nunca se sabe.

O fato é que mediante a suposta improvável parceria bloguística que se esboçou a poucos dias atrás através de um mirabolante devaneio do meu nobre colega DJS, pedi ao dito cujo que me enviasse um texto sobre o concerto do último post e enquanto seu lobo não vem, e provavelmente nunca virá, resolvi reler o Será que já posso Morrer? e me detive diante a história do meu One Direction e não é que me lembrei o exato dia (o dia exato não sei, só lembro que foi em um dos quatro domingos de janeiro de 1994) em que Gilberto Gil transformou minha cabeça.

Naquele domingo tínhamos ido visitar minha bisavó ali no Carrão, Rua Diamante Preto nº…, só não me lembro do número da casa e nem dos meus irmãos (Mariana e Pedro, onde vocês estavam?). Bom, o que lembro que queria ir ao cinema, deixamos minha mãe com a vozinha dela e fomos, meu pai e eu, para o shopping Aricanduva e como acontece desde que me entendo por gente nos atrasamos, nos perdemos e o meu filme foi ó …pro beleléu, que frustração! Só nos restava tomar um sorvete e dar uma voltinha pelos corredores por entre as lojas fechadas, por isso que lembro ter sido um domingo. Mas não é que lá no meio de um dos corredores um sonzinho foi crescendo a cada passo e eis que do nosso lado esquerdo surge uma loja de discos, abertíssima e sedenta por pais com seus filhos frustados e com picolé de limão escorrendo pelos dedos. E vos pergunto: o que tocava na tal lojinha, hein?

Oswaldo Montenegro.

E ao som dos bandolins (essa piada foi muito fina, hein?) ouvimos o Monte interpretando uma série de canções do Chico. Não me interessando muito pelo som ambiente fui vasculhar alguma coisa mais interessante enquanto meu pai, que cá entre nós é louco por uma conversinha, começou a falar com o funcionário, um sujeito maluco por Oswaldo Montenegro (pode?? humm…ta bom, ta bom, temos que respeitar, né?), que falava com tanto ardor daquele disco que não precisou muito para convencer o Paulo Borges a leva-lo pra casa. O empregado só não sabia que aquele que tocava era o último exemplar que ele tinha, ficou sem o seu One Direction e nós fomos ouvir a banda, claro, ao som dos bandolins, lá em Tatuí.

E agora explico o porquê tenho tanta certeza que estávamos em janeiro, e essa é talvez uma das provas de que muitas vezes quando meu pai está indo, a minha mãe? já voltou a tempos. Dias antes, no natal, meu pai achando que estava apavorando no presente, ofereceu à minha mãe um LP do Chico, Paratodos (1993), e ela no mesmo instante deu-lhe uma caixa toda emperequetada com aquele que foi nosso primeiro CD player, portanto o CD Seu Francisco (1993), de Oswaldo Montenegro, comprado na única loja aberta do shopping Aricanduva e das mãos do fã nº1 do cantador dO Condor, foi oficialmente o primeiro CD da casa.

Com o CD nas mão, em frente ao vendedor borocoxô e a loja agora em silêncio, meu pai vira e diz: “Vamo Gabri, escolhe um rapidinho que a mamãe está esperando”, e aí eu que estava com uns cinco CDs nas mãos resolvi dar uma olhadela na estante dos lançamentos e lá o vi: Gilberto Gil Unplugged (1994), uma foto em preto e branco com um nome estranho em letras coloridas e terminava com a música do Sítio do Pica-Pau-Amarelo, tal qual um pedaço de um show que eu vira na TV junto com meu tio Fausto, era esse!

Não sei dizer exatamente o que me cativou mas a partir daí, e durante um bom tempo, foi só Gilberto Gil, Unplugged (1994), Expresso 2222 (1972), Gilberto Gil ao Vivo (1974), Refazenda (1975),  Refavela (1977), Antologia Samba-Choro – com Germano Mathias (1978), A Gente Precisa Ver o Luar (1981), O Eterno Deus Mu Dança (1989), todos LPs que meus pais já tinham, e Quanta (1997) – meu primeiro show dele, com minha prima Bianca, e com direito a autógrafo na capa, Raça Humana (1984) – com dinheiro emprestado da profª de Literatura, O Sol de Oslo (1998) – presente da minha irmã, assim como meu último CD dele em formato físico, Concerto de Cordas & Máquina de Rítmo (2012), que fomos ouvindo até Lisboa.

Fora isso foram livros, revistas, reportagens, decorei as letras todas (Geléia Geral foi difícil!) acho que tive até posters, coisas de adolescente bitolado mesmo, mas em vez de bandas de rock era Gilberto Gil. Porém o relógio andou e com ele a admiração só cresceu e a loucura e a fixação foram se amansando… contudo dia 31/07/2015 chegou e pobre das quatro garotas que estavam atrás de mim.

E pai, agradeço a deus pela sua falta de pontualidade e de senso de direção!

Beijos

Será que já posso morrer?

 Acabo de acordar de um dia realmente incrível que terminou lá pelas cinco e meia da manhã com uma discussão whatsappeana muito pouco profunda, eu diria que da profundidade de uma piscina pra recém-nascidos, com meu cunhado Dudu, sobre coisas da vida, onde elas podem ser boas mas as achamos detestáveis, ruins e as adorarmos e que não necessariamente aquilo que não gostamos não presta e vice-versa.

O fato é que ontem fui ao que acredito ter sido o melhor concerto da vida, pelo menos da minha, e que meu cunhado, sensível como um mastodonte, o definiu em um sucinto e sutil comentário no meu Instagram: “lixo”, dando o pontapé inicial para nosso debate onde a única intensão dele é de provocar, como acontece em absolutamente todas nossa discussões, e eu, tonto e já sabendo de ante-mão que essas são as intensões dele, sempre dou trela. E agora eu poderia iniciar uma divagação sobre esta questão Gosto x Qualidade e desembocar em uma suave reflexão sobre as coisas que realmente gosto, as que acho boas, se vejo qualidades nas que não gosto, se reconheço as ruins de que gosto e, acima de tudo, e o mais importante: o respeito. Por mais afinidades que você possa ter com outra pessoa ela sempre vai adorar alguma, alguma não, várias coisas que você abomina, músicas, livros, roupas, nomes, coentros… E aqui eu deveria fazer um mea culpa e refletir se não poderia ser mais condescendente, o que de fato devo, se talvez minha relação com as pessoas não poderia melhorar etc… Acontece que não foi exatamente pra isso que vim aqui e por tanto essa reflexão será feita mas internamente.

Por que que eu voltei à esse blog?

Desde a última postagem muita coisa aconteceu nas nossas vidas que, não sei bem o porquê, não registrei em forma de texto. Porém uns dias atrás quando David e eu trassávamos o plano do fim do caminho de Santiago, camiño esse que iniciamos o ano passado mas que por motivos mais do que razoáveis tivemos que o interromper, ele como que uma brincadeira sugeriu: «Olha, seria fixe se montássemos um blog em conjunto, não?» Não levei isso a sério mas ontem, no meio dos duzentos e cinquenta e tais quilómetros que separam Lisboa de Aveiro ele veio novamente com esse papo de blog, que poderíamos postar nossas visões sobre a peregrinação a Santiago de Compostela e consequentemente sobre outras trilhas que viermos a fazer, juntos ou não, que pra já foram duas: PR1 – Pateira de Fermentelos, esta com a jubilosa companhia de nossas senhoras e PR2 – Albergaria-a-Velha, que as madames não quiseram ir por ser um pouquinho mais difícil, e aí me lembrei do meu empoeirado e sucumbido Cello na Ria, que nasceu para gerir uma carreira profissional de um músico, virou um local de textos desinteressantes e banais e que depois de certo tempo caiu no ostracismo.

Porém como o dia de ontem foi muito foda, daqueles que espero me esquecer um dia depois do dia em que já não lembrar meu próprio nome, resolvi dar mais um sopro de vida ao Cello e postar qualquer coisa sobre o meu 31/07/2015.

No que se refere à música, talvez eu já tenha mencionado isso algures, não fui uma criança/adolescente muito normal, pelo menos para os parâmetros de Tatuí (e claro que por “culpa” dos meus pais e de uma antena de rádio super potente que para a nossa alegria sintonizava perfeitamente os 105,3 MHz da finada Musical FM de São Paulo), onde meus colegas ouviam Guns N’ Rose, Iron Maiden e coisas do gênero, eu ouvia muito Chico Buarque, MPB4 e Sá & Guarabyra. E tal qual uma grande amiga me contou que sua irmãzinha super fofa de 11 anos declarou que o One Direction é e será sua banda preferida para todo o sempre, eu aos 12 descobri quem seria o meu One Direction: Gilberto Gil.

Vinte e um anos se passaram cheios de idas e vindas e meu One Direction se manteve no topo da lista, lá dividiu seu espaço outros que já se foram e com alguns que vieram e decidiram ficar, dentre os quais: Caetano Veloso.

Agora imaginem minha explosão de alegria quando soube que os dois fariam um concerto juntos a apenas duzentos e cinquenta e tais quilómetros daqui de casa, ela não me cabia, ela transbordava e eu não poderia perder este evento por nada no mundo!!! E não o perdi.

Por questões de gosto e não de qualidade a Mica decidiu ficar em casa e assim seu bilhete migrou para as mãos do David e lá fomos nós ao encontro dos meus super-heróis ao som do “Prenda Minha Ao Vivo” e do “Concerto de Cordas e Máquina de Rítmo” e num crescente de ansiedade e emoção.

Enfim, após um longo tempo de espera, dividido entre saltos ornamentais, LPs, quadrinhos, kibes e fortes rajadas de vento o tão aguardado concerto começou, só os dois, o preto de branco e o branco de preto, num palco tão grande quanto longínquo, porém que emanava tamanha energia que mesmo longe, do palco, da Mica, das muitas pessoas que amo e do tricolor, naquele momento eu estava no melhor lugar do mundo.

Foram vinte e tantas músicas, revezadas entre solos e duetos, das quais eu conhecia a grande maioria, que me trouxeram a tona uma enxurrada de emoções, lembranças e sentimentos bons que gostaria que as vinte e tantas não acabassem nunca, mas acabaram e me deixando as lembranças e emoções, cumprindo talvez o real papel delas, e deles.

O regresso também foi responsável por sua dose de emoções quando quase, mas muito quase, ficamos parados sem combustível no meio da estrada e pelo cachorro-quente as quatro da manhã nO Mocho, um bar que beira o surrealismo e a tão amada Fermentelos do meu hipotético futuro comparsa de blog.

Após o tal debate deitei-me na cama e pensei: «Se eu morresse hoje eu morreria feliz… mas peralá, ainda não levei a Mica para o Egito. Dona Morte, nem pense nisso!!

Um dos registros do concerto:

PS: Gostaria de me desculpar publicamente com as quatro meninas que por questões de minutos chegaram depois de mim e por isso tiveram a visão prejudicada, a audição insultada e os pés estraçalhados, me perdoem, sim?

Para o velho Saliba II

Não é que só o Moreira da Silva me lembre o velho Saliba, mas…

Retoque

Retoque
re.to.que
sm (der regressiva de retocar) 1 Ação ou efeito de retocar; correção, emenda. 2 Correção numa obra, para a aperfeiçoar.3 Última demão que se dá a uma obra de arte.

Que alegria quando meus avós, atrasados, resolviam pegar um taxi para descer pro hotel, isso queria dizer: o café da manhã chegará mais rápido, o jogo de botão começará mais cedo, acho que pego o HE-MAN do começo e, principalmente, não vou ter que atravessar a Braguinha inteira.

Aos olhos de hoje, a Braguinha – calçadão no centro de Sorocaba que ligava, e suponho que continue ligando, a casa dos meus avós ao hotel deles – nem devia ser tão grande assim pois o velho Saliba nem reclamava tanto de andar tamanha distância. Mas para um moleque de dez anos, as vezes um pouco menos, outras um pouco mais, o percurso era quase tão chato quanto a tabuada do sete.

Fazendo o mesmo percurso durante férias e férias, impossível não lembrar de certas coisas: logo de cara passávamos pela Matriz, entrávamos muito rapidamente, vovó encostava no pé do Cristo, fechava os olhos, uma oração e seguíamos caminho. Um pouco mais abaixo, havia um cinema, que no meu aniversário de oito anos, preferi verOs Trapalhões na Terra dos Monstros a ver De volta para o futuro (quanto arrependimento!). Logo ali na esquina de baixo, de frente pra uma loja de bolsas, ficava uma loja de discos onde, já com uns treze, comprei um CD do João Bosco. E era isso: lojas e mais lojas, gente e mais gente, pombas e mais pombas. Já no final, quase chegando na rua do hotel, do lado esquerdo, tinha a quitanda da japonesa que minha avó ia, e pegado à quitanda tinha uma casa onde, durante poucas férias, funcionou um salão de cabeleireiro.

Além de funcionar como hotel, o hotel também funcionava como colônia de férias para netos procedentes de Tatuí e esporádicos encontros “Salibais” regados a macarronada e maionese. E exatamente num desses encontros ouvi um dos choros mais revoltosos da minha vida. “Olha o que ele fez comigo!!!” ecoava pelo corredor… meu Deus, pensei, o que fizeram com a coitada?? Corri para ver e … lá estava minha pobre prima Juliana derramando lágrimas de ódio e babas de desespero,  jugulares prontas para entrar em erupção.

O que aconteceu??

Do lado da quitanda tinha uma casa onde funcionou um salão, não é? Pois bem, naquele sábado a Ju resolveu mudar o visual e foi experimentar o tal salão e o resultado foi…”Olha o que ele fez comigo!!!”

Não vi nada de mais, até a achei exagerada.

Bom, a dois dias da minha segunda bodas, quer dizer: a duas semanas atrás, minha mãe decidiu ir à cabeleireira (que por princípios prefiro tratar apenas por W.) fazer um não sei o que qualquer, e me convenceu a ir junto para ajeitar minha cabeleira e deixar a Mica feliz. “Você vai adorar…ela é super boa, atenciosa, cuidadosa….um amor” Ok…certo de que não encontraria nenhum Geraldo, acabei por ir. Afinal, acredito que passar máquina 3 não requer muita habilidade, não é mesmo?

Um salão bem caprichado, com um ar retrô e cheirando a baunilha (???). Enquanto minha mãe se emperequetava toda, olhei toda coleção de LPs  da W., folhei almanaques dos anos 70 e 80… quando finalmente…

“O que vai ser?”

Como no meu caso já não existem muitas opções plausíveis, optei pelo mais simples: “Máquina 3 em tudo!”.

W. continuou falando com minha mãe, que claro, não deixou de citar o aniversário de casamento, a norinha linda….

No meio do caminho lembrei de perguntar se ela poderia passar a máquina também na barba. “Vou chegar lá de cabelo cortado e barba feita?? Humm…com certeza a Mica vai me pedir em casamento de novo!!” – pensei eu em um raro momento de auto-exibicionismo.

“Claro…quer que passe o pente 3?”, perguntou a cabeleireira.

“Não, não…na barba pode ser a máquina 0 mesmo” respondi.

“Ok, sem problemas!”.

Continuamos conversando, eu falando da vida cá em Portugal, os doces, a universidade, Fátima…. minha mãe contando da visita que eles nos fizeram…Até que barba e cabelo ficaram prontos, do jeito que era pra ser.

Quando a W., com máquina em punho disse: “Deixa eu dar mais um retoque!”. Bom, beleza, um retoquezinho de leve só ficar um acabamento melhorzinho e tal…Zumm…da nuca até o tampo da cabeça, de uma vez só.

Agora pensemos: o que ela estava fazendo com a máquina antes do tal retoque?? A barba. E qual foi o pente que ela passou na barba???

Minha mãe e ela se olharam com cara de terror, silêncio gélido quebrado por uma voz tão baixa quanto envergonhada que gaguejou: “calma, calma….dá pra arrumar!”

Minha mãe não sabia se tinha mais pena de mim, da W., ou da Mica.

Respirei fundo, xinguei em pensamento, fechei os olhos, e ela começou a “arrumação”: “isso não é nada….dá pra corrigir….vai ficar super bom….e além do mais você tem um formato de cabeça super-hiper bonito….hoje é lua crescente…”

“Pronto, que tal?” “Não ficou ótimo??”

Abri os olhos e … estava a cara do Forrest Gump, só que piorado. Nesta altura minha mãe já, vendo que mantive a compostura, já se esbaldava a rir.

Não teve jeito, raspei a cabeça tudo, e bem nesta hora me lembrei da minha prima Juliana, e vinte anos depois entendi seu ódio.

Acabado a lambança, levantei e pensei: “Nunca mais quero ver a cara desta p#%$@ desta W.””Anda lá na padaria antes que ela feche filho. E quando você voltar já terei terminado e iremos pra casa.”

Dobrando a esquina uma corrente de ar gelado me acertou a cara que meu dentes até ameaçaram a bater. Xinguei um monte!! No caminho  olhando muros e mais muros pichados, e contemplando minha desgraça (agora se a Mica não pedisse o divórcio estaria no lucro) pensei que aquele retoque tinha sido de um vandalismo tão grande quanto o dos pichadores. Mas espera: como ela se chama mesmo???

Ah…ta explicado!

único registro

O Vira

“Me convidaram pra uma tal…” nada disso, meu primeiro VIRA foi numa festa muito bem comportada, no coreto da pracinha, onde se juntássemos todos os presentes a média de idade seria uns…30 anos (ah…acharam que ia dizer 70 né?) mas é que cada velinho de 70 levou um netinho de 4.

Estávamos voltando pra casa e lá ao fundo vimos umas luzinhas  pirilampejando e resolvemos dar uma olhadinha no que se passava. Chegamos na praça e, como mágica, nos transportamos para a quermece do Chico Bento: coreto enfeitado, barraquinhas disso e daquilo, lua sorridente, padre careca desfilando entre os presentes; só que ao invés de pipoca e algodão doce….sardinha na brasa! 

Um povo, com uma certa tensão, se amontoava em cima do coreto; sanfonas e violas esquentavam os motores, e eis que um bigode falante com uma voz  digna do clã Caymmi apresentou o grupo e anunciou o início da apresentação, não sem antes entregar uma prenda qualquer ou político qualquer, a velha e não tão boa politicagem.

Num rítmo acelerado e com braços aos céus, os pares começaram a rodar em sincronia e uma bigode berrante, essa com voz digna do clã das Cyperus rotundus (leia-se Tiriricas), se pôs a entoar de maneira esguelante versos que, quando eu entendia, soavam muito parecidos com nossas cantigas de roda. Nada de suruba!

Foi uma apresentação simples mas muito bonita, onde ficou claro que o grupo, provavelmente formado por padeiros, costureiras, professores, ex-primeiros ministros, estudantes…, se mantém graças ao esforço de seus integrantes para manter viva as antigas (claro!) tradições.

Quando dizem que qualquer coisa é uma coisa típica, invariavelmente esse “típico” quer dizer: compre!! E foi exatamente isso o que me chamou a atenção: uma apresentação de um grupo de músicas e danças típicas em uma festa típica que não estava preocupado com turistas. Aliás, havia algum turista?? Não, néca! Mas, como se não precisassem deles, a festa estava rolando muito bem, com os velinhos, saudosistas e entusiastas, e os membros do grupo a apaziguarem o sistema nervoso, o que em tempos de crise é muito importante.

 

Fernando Pessoa

Aproveitando o embalo, deixo aqui um “poeminha” do Pessoa:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

 

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