• O Violoncelo

    Chorai arcadas
    Do violoncelo!
    Convulsionadas, Pontes aladas
    De pesadelo…
    De que esvoaçam,
    Brancos, os arcos…
    Por baixo passam,
    Se despedaçam,
    No rio, os barcos.
    Fundas, soluçam
    Caudais de choro…
    Que ruínas, (ouçam)!
    Se se debruçam,
    Que sorvedouro!…
    Trêmulos astros,
    Soidões lacustres…
    Lemes e mastros…
    E os alabastros

    Dos balaústres!
    Urnas quebradas!
    Blocos de gelo…
    Chorai arcadas,
    Despedaçadas,
    Do violoncelo.

    Camilo Pessanha, in ‘Clepsidra’

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Um dia de Baloubet du Rouet

Lembro como se fosse hoje. Todos os olhos fixados na TV a espera do grande Rodrigo Pessoa e seu garanhão imponente Baloubet du Rouet. Antes mesmo do início da apresentação, o país inteiro já contabilizava mais um ouro, e, como sabemos, a história não foi bem assim.
Quinta-feira passada, vivi meu dia de Baloubet. Não participei de nenhum concurso internacional onde os holofotes estavam todos focados no som de meu violoncello… nada disso, foi “apenas” uma audição de alunos.
Fui o primeiro. Estava nervoso porem confiante. Entrei mesmo pelo lado da platéia, que já contava com um bom número de pessoas, alguns amigos, muitos desconhecidos…e aquele corredor entre as cadeiras, que haviam sido arrumadas na véspera, parecia não ter fim, no caminho fui tentando organizar os pensamentos, lembrar o máximo possível as coisas que o Sacha pegou no meu pé em todas as aulas: “flexibilidadeformadasnotasgalopesMARTELADASafinaçãomaisbaixa afinaçãomaisaltaaquivibraaquinaovibra falangesrelaxadasNOTASPRINCIPAISantecipeosacordes maisarcomenosarcomMARTELADAS temporitmoaquiseguraaquirecuperaarticulaMARTELADAS separaligaintençãocotovelomudasçadecorde MUDANÇADEPOSIÇÃOglissandoângulodoarcoARCOPRACIMASEMACENTO formamaissomvibratomaislargo VIBRATOESTREITINHOantecipaarcomaislento ARCOMAISRÁPIDOcatedraligrejaTRRRADII….”
e quando o me aproximei do banco, tentei apenas pensar em encher todo aquele ambiente com um som sincero e penetrante, tal qual o do Rostropovich ou Yoyo-Ma. Muita pretensão? Talvez, quem sabe!
Sentei, concentrei ainda mais, respirei, preparei e quando ia atacar, a porta rangeu, (seria um aviso??), mais duas pessoas entraram, nas pontas dos pés e praguejando contra o funcionário que deveria ter passado um olinho nas dobradiças. Esperei elas se acomodarem, senti todos os olhares, enchi meu peito de coragem e comecei.
Levei alguns compassos para controlar meus nervos, e aos poucos fui relaxando e comecei a curtir aquela sensação. A música estava muito bem decorada, e a confiança fez com que me libertasse daquelas folhas cheias de notas e anotações, que por sinal estavam pessimamente posicionadas, esse foi meu grande erro!
Logo no começo da fuga do prelúdio da quinta suíte de JSBach, parte que mais gosto, minha memória refugou pela primeira vez. Um branco tão imenso e abrupto que não tive tempo de me esquivar. Parei. Um silêncio doído. Nesta hora você só pensa em retomar a tranqüilidade (o que é quase impossível) e que isso é normal, que todos um dia passam por essa situação etc etc etc … Assim como meu querido Baloubet, refuguei mais uma vez, agora duas páginas a diante, e o pior, não sei exatamente o porquê, pois a partitura estava bem na minha frente, mas aconteceu. E nesta hora, você não pensa em mais nada, só torce por uma manada de elefantes loucos ou para que alguma alma piedosa se levante e diga: “Eu tenho aqui um buraco que posso te emprestar por uns dias, você quer?”
Vocês se lembram daquele nadador que também participou das olimpíadas de Sydney, que nadou sozinho, terminou os cem metros com o mesmo tempo que o penúltimo levaria pra nadar trezentos e ainda por cima quase se afogou? Pois é, me senti assim logo depois do último acorde, em Dó Maior. Você termina por questão de honra e as pessoas te aplaudem mesclando pena com a alegria de ver o seu esforço. Isso é péssimo! E sem contar o sorriso sarcástico de alguns outros. Péssimos também são os consolos do tipo: “Acontece”, “Faz parte”, “Tirando a parte que você esqueceu, foi muito bom”, “Ninguém morre por isso”… enfim.
Garanto que na próxima audição, vou tocar muito melhor, e dar reais alegrias a todos, quem quiser que venha ver.
Como eu gosto da minha profissão!
Em tempo: meu querido Baloubet refugou uma terceira vez.

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6 Respostas

  1. Pra mim estava perfeito!!!
    E acho que isso acontece mesmo com todos aqueles que são e foram músicos um dia na vida!!!
    Te amo!

  2. deve ser mais ou menos a mesma coisa do que dizer:
    estou largando a minha profissão, quero uma outra bem mais complicada. quero estudar por, pelo menos, mais 10 anos…
    daí, vc começa o ano numa confiança… estuda diariamente, mtas horas por dia… com o passar dos dias, essa disposição cai um pouco, e a memória não guarda nada. mitocondria?? sintetiza ribossomos, ou é aquela da respiração?? definições sem o menor nexo!!!
    chega no fim do ano todo mundo te liga desejando sorte naquela provinha, ascendem velas…
    a nota final??? 56 pontos de 90. nem segunda fase!
    cá estamos, vc estudando pra mais uma apresentação, com milhoes de notas que se fundem; e eu estudando pra não confundir M.U., M.R.U., M.H.S., com botânica.
    sorte pra nóis!

  3. Nem sou da família.
    Mas, rapaz, como você escreve bem!
    Me deterei à questão literária, pois “brancos” são sucessivos em minha memória. Às vezes, consigo me recordar do número do telefone de uma escola de dança – detalhe: passo a quilômetros de uma; talvez, não tenha jamais sentido o ‘toc-toc’ abafado naquele linóleo. Pra que? Nem sei. Mas pergunte se eu consigo decorar todas as novas regras gramaticais – coisas que eu, obrigatoriamente, deveria saber. Pergunte.
    Não vou tentar avaliar, nem diagnosticar. Mas, há um outro lado (sempre ele) é pouco provável que isso volte a se repetir.
    E, para que não digam que andei elogiando-o pelas costas: rapaz, como você escreve bem!

    • Bom…já decorou?haha
      Espero que você esteja certa, e que pelo menos meu próximo branco venha com duas faixas: uma vermelha e outra preta!!haha
      Muito obrigado

      • Mas se a questão é a palheta de cores… Acho que um branco fica tão bom com um verdinho…

  4. […] Saibam vocês Um dia de Baloubet du Rouet […]

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