• O Violoncelo

    Chorai arcadas
    Do violoncelo!
    Convulsionadas, Pontes aladas
    De pesadelo…
    De que esvoaçam,
    Brancos, os arcos…
    Por baixo passam,
    Se despedaçam,
    No rio, os barcos.
    Fundas, soluçam
    Caudais de choro…
    Que ruínas, (ouçam)!
    Se se debruçam,
    Que sorvedouro!…
    Trêmulos astros,
    Soidões lacustres…
    Lemes e mastros…
    E os alabastros

    Dos balaústres!
    Urnas quebradas!
    Blocos de gelo…
    Chorai arcadas,
    Despedaçadas,
    Do violoncelo.

    Camilo Pessanha, in ‘Clepsidra’

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Retoque

Retoque
re.to.que
sm (der regressiva de retocar) 1 Ação ou efeito de retocar; correção, emenda. 2 Correção numa obra, para a aperfeiçoar.3 Última demão que se dá a uma obra de arte.

Que alegria quando meus avós, atrasados, resolviam pegar um taxi para descer pro hotel, isso queria dizer: o café da manhã chegará mais rápido, o jogo de botão começará mais cedo, acho que pego o HE-MAN do começo e, principalmente, não vou ter que atravessar a Braguinha inteira.

Aos olhos de hoje, a Braguinha – calçadão no centro de Sorocaba que ligava, e suponho que continue ligando, a casa dos meus avós ao hotel deles – nem devia ser tão grande assim pois o velho Saliba nem reclamava tanto de andar tamanha distância. Mas para um moleque de dez anos, as vezes um pouco menos, outras um pouco mais, o percurso era quase tão chato quanto a tabuada do sete.

Fazendo o mesmo percurso durante férias e férias, impossível não lembrar de certas coisas: logo de cara passávamos pela Matriz, entrávamos muito rapidamente, vovó encostava no pé do Cristo, fechava os olhos, uma oração e seguíamos caminho. Um pouco mais abaixo, havia um cinema, que no meu aniversário de oito anos, preferi verOs Trapalhões na Terra dos Monstros a ver De volta para o futuro (quanto arrependimento!). Logo ali na esquina de baixo, de frente pra uma loja de bolsas, ficava uma loja de discos onde, já com uns treze, comprei um CD do João Bosco. E era isso: lojas e mais lojas, gente e mais gente, pombas e mais pombas. Já no final, quase chegando na rua do hotel, do lado esquerdo, tinha a quitanda da japonesa que minha avó ia, e pegado à quitanda tinha uma casa onde, durante poucas férias, funcionou um salão de cabeleireiro.

Além de funcionar como hotel, o hotel também funcionava como colônia de férias para netos procedentes de Tatuí e esporádicos encontros “Salibais” regados a macarronada e maionese. E exatamente num desses encontros ouvi um dos choros mais revoltosos da minha vida. “Olha o que ele fez comigo!!!” ecoava pelo corredor… meu Deus, pensei, o que fizeram com a coitada?? Corri para ver e … lá estava minha pobre prima Juliana derramando lágrimas de ódio e babas de desespero,  jugulares prontas para entrar em erupção.

O que aconteceu??

Do lado da quitanda tinha uma casa onde funcionou um salão, não é? Pois bem, naquele sábado a Ju resolveu mudar o visual e foi experimentar o tal salão e o resultado foi…”Olha o que ele fez comigo!!!”

Não vi nada de mais, até a achei exagerada.

Bom, a dois dias da minha segunda bodas, quer dizer: a duas semanas atrás, minha mãe decidiu ir à cabeleireira (que por princípios prefiro tratar apenas por W.) fazer um não sei o que qualquer, e me convenceu a ir junto para ajeitar minha cabeleira e deixar a Mica feliz. “Você vai adorar…ela é super boa, atenciosa, cuidadosa….um amor” Ok…certo de que não encontraria nenhum Geraldo, acabei por ir. Afinal, acredito que passar máquina 3 não requer muita habilidade, não é mesmo?

Um salão bem caprichado, com um ar retrô e cheirando a baunilha (???). Enquanto minha mãe se emperequetava toda, olhei toda coleção de LPs  da W., folhei almanaques dos anos 70 e 80… quando finalmente…

“O que vai ser?”

Como no meu caso já não existem muitas opções plausíveis, optei pelo mais simples: “Máquina 3 em tudo!”.

W. continuou falando com minha mãe, que claro, não deixou de citar o aniversário de casamento, a norinha linda….

No meio do caminho lembrei de perguntar se ela poderia passar a máquina também na barba. “Vou chegar lá de cabelo cortado e barba feita?? Humm…com certeza a Mica vai me pedir em casamento de novo!!” – pensei eu em um raro momento de auto-exibicionismo.

“Claro…quer que passe o pente 3?”, perguntou a cabeleireira.

“Não, não…na barba pode ser a máquina 0 mesmo” respondi.

“Ok, sem problemas!”.

Continuamos conversando, eu falando da vida cá em Portugal, os doces, a universidade, Fátima…. minha mãe contando da visita que eles nos fizeram…Até que barba e cabelo ficaram prontos, do jeito que era pra ser.

Quando a W., com máquina em punho disse: “Deixa eu dar mais um retoque!”. Bom, beleza, um retoquezinho de leve só ficar um acabamento melhorzinho e tal…Zumm…da nuca até o tampo da cabeça, de uma vez só.

Agora pensemos: o que ela estava fazendo com a máquina antes do tal retoque?? A barba. E qual foi o pente que ela passou na barba???

Minha mãe e ela se olharam com cara de terror, silêncio gélido quebrado por uma voz tão baixa quanto envergonhada que gaguejou: “calma, calma….dá pra arrumar!”

Minha mãe não sabia se tinha mais pena de mim, da W., ou da Mica.

Respirei fundo, xinguei em pensamento, fechei os olhos, e ela começou a “arrumação”: “isso não é nada….dá pra corrigir….vai ficar super bom….e além do mais você tem um formato de cabeça super-hiper bonito….hoje é lua crescente…”

“Pronto, que tal?” “Não ficou ótimo??”

Abri os olhos e … estava a cara do Forrest Gump, só que piorado. Nesta altura minha mãe já, vendo que mantive a compostura, já se esbaldava a rir.

Não teve jeito, raspei a cabeça tudo, e bem nesta hora me lembrei da minha prima Juliana, e vinte anos depois entendi seu ódio.

Acabado a lambança, levantei e pensei: “Nunca mais quero ver a cara desta p#%$@ desta W.””Anda lá na padaria antes que ela feche filho. E quando você voltar já terei terminado e iremos pra casa.”

Dobrando a esquina uma corrente de ar gelado me acertou a cara que meu dentes até ameaçaram a bater. Xinguei um monte!! No caminho  olhando muros e mais muros pichados, e contemplando minha desgraça (agora se a Mica não pedisse o divórcio estaria no lucro) pensei que aquele retoque tinha sido de um vandalismo tão grande quanto o dos pichadores. Mas espera: como ela se chama mesmo???

Ah…ta explicado!

único registro

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7 Respostas

  1. Nunca que eu ia me divorciar de vc por causa do seu cabelinho!! afinal vc ficou um gatinho…..como sempre!!
    beijos da sua amada

  2. olha a minha vasta cabeleira!!! quanto orgulho.

    • passe na 07/04 com a 07/05 e verás!

      • tenho ido à 09/07. não são tão simpáticos quanto a tal vandala, mas saio íntegro.
        mas, se tudo der certo, em janeiro vou lá e peço pra fazer exatamente igual ao seu.
        lá onde frequento diariamente, o que mais se deseja é passar a zero. to na expectativa.

  3. você ficou tão lindinho… A W jamais esquecer aquele dia… Ela ficou tão sem graça… Ainda bem que cabelo cresce rápido foi o que eu comentei com ela enquanto você foi à padaria…. Além do mais, vai economizar em cortes nos próximos 6 meses lá em Portugal.

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