• O Violoncelo

    Chorai arcadas
    Do violoncelo!
    Convulsionadas, Pontes aladas
    De pesadelo…
    De que esvoaçam,
    Brancos, os arcos…
    Por baixo passam,
    Se despedaçam,
    No rio, os barcos.
    Fundas, soluçam
    Caudais de choro…
    Que ruínas, (ouçam)!
    Se se debruçam,
    Que sorvedouro!…
    Trêmulos astros,
    Soidões lacustres…
    Lemes e mastros…
    E os alabastros

    Dos balaústres!
    Urnas quebradas!
    Blocos de gelo…
    Chorai arcadas,
    Despedaçadas,
    Do violoncelo.

    Camilo Pessanha, in ‘Clepsidra’

  • Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

    Junte-se a 558 outros seguidores

  • postagens

    setembro 2017
    S T Q Q S S D
    « ago    
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930  
  • Saibam vocês

  • Últimas do Instagram

    #metrô #subway #barrafunda #tvminuto Mais um pouco e seremos nós a apagar as luzes mas vamos lá #clubedafé #comoeuteamotricolor #morumbi

Fernando Pessoa

Aproveitando o embalo, deixo aqui um “poeminha” do Pessoa:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

 

Anúncios

Para cellistas

Ouvi essa no master class de hoje e achei uma ótima definição:

“Crescer no arco pra cima e decrescer no arco pra baixo, é o cartão de entrada para o clube dos maus violoncelistas”  Romain Garioud

“O que é arte?”

Li esse trecho no blog do Neny (http://labittencourt.wordpress.com/2010/03/08/arte-em-musica/#comments) um daqueles que ainda usa o blog, gostei muito. Resolvi “roubar”.

“A literatura está atafulhada com tentativas desesperadas em responder à questão “o quê é arte?”. Esta questão, muitas vezes irremediavelmente confundida com a questão “o que é boa arte?”, é crucial no caso da arte encontrada – a pedra apanhada na entrada da garagem e exposta num museu – e agrava-se anda mais pela promoção das chamadas arte ambiental e arte conceptual(…)Nos casos cruciais, a verdadeira questão não é “quais os objectos que são (permanentemente) obras de arte?” mas “quando um objecto é uma obra de arte?”(…) A pedra não é nenhuma obra de arte enquanto está na entrada da garagem, mas pode ser tal quando exposta num museu de arte. Na entrada da garagem, ela não realiza habitualmente nenhuma função simbólica. No museu, ela exemplifica algumas de suas propriedades – e.g., propriedades de forma, cor, textura. (…)As coisas funcionam como obras de arte apenas quando o seu funcionamento simbólico tem certas características. A nossa pedra, num museu de geologia, assume funções simbólicas como amostra de pedras de um determinado período, origem ou composição, mas não está a funcionar como obra de arte.”

extraído de Goodman, Nelson (1995) Modos de fazer mundos. Porto, Edições Asa.

Por que não escolhi direito??

Sabe quando você tem que tomar certa decisão, e você acaba indo pro lado errado?

Esse texto do Barão de Itararé retrata muito bem isso.

Das duas,uma

Amanhã, domingo, das duas, uma: ou você assiste a um jogo ou a um filme qualquer.
Se você vê o filme, tudo bem. Mas se vê o jogo, das duas, uma: ou você torce para um dos times ou fica indiferente.
Se você fica indiferente, tudo bem. Mas se torce, das duas, uma: ou você pega uma almofada para socar ou rói as unhas.
Se você rói as unhas, tudo bem. Mas se você pega uma almofada para socar, das duas, uma: ou é uma almofada comum, vagabunda, ou é uma almofada de estimação, daquelas pacientemente bordadas por sua sogra dois dias antes de morrer.
Se é uma almofada comum, tudo bem. Mas se é uma almofada especial, das duas, uma: ou você tenta consertá-la no intervalo ou conta para sua mulher que transformou em farrapo aquela lembrança especial.
Se você tem habilidades de crochê e conserta o estrago, tudo bem. Mas se você vai contar tudo para sua mulher, das duas, uma: ou ela é muito mansa ou é uma fera.
Se sua mulher é mansa, tudo bem. Mas se ela for uma fera, das duas, uma: ou você engole em seco todos os xingamentos que vai ouvir ou parte de uma vez para a ignorância.
Se você engole em seco, tudo bem. Mas se parte para a ignorância, das duas, uma: ou você bate ou você apanha.
Se você apanha, tudo bem. Mas se você bate, das duas, uma: ou ela foge e nunca mais volta ou ela chama a polícia.
Se ela foge e nunca mais volta, tudo bem. Mas se chama a polícia, das duas, uma: ou eles aceitam suborno ou te levam para a delegacia.
Se eles aceitam suborno, tudo bem. Mas se te levam para a delegacia, das duas, uma: ou você vai para uma cela individual ou para uma coletiva.
Se você vai para a solitária, tudo bem. Mas se te põem numa coletiva, das duas, uma: ou os companheiros de cela te ignoram ou resolvem lhe dar uma surra para você aprender que não deve bater em mulher nem com uma flor, ainda mais com um controle remoto.
Se eles te ignoram, tudo bem. Mas se eles te acertam, das duas, uma: ou você morre ou vai para um hospital público.
Se você morre, tudo bem. Mas se vai para um hospital público, das duas, uma: ou você é operado por engano e trocam o seu sexo ou fica largado no corredor sem ser atendido.
Se trocarem o seu sexo e você tiver que mudar o nome para Maricleide, tudo bem. Se te largarem no corredor, das duas, uma: ou tem uma televisão ali por perto, ou não.
Se não houver, tudo bem. Se houver, das duas, uma: ou você assiste a um jogo ou a um filme qualquer.
Dessa vez, assista ao filme.

Antes que alguém pare para se perguntar qualquer coisa: podia escolher entre ESTUDOS EM PERFORMANCE II, que é moleza e só tem que apresentar um trabalho, e ESTÉTICA, qual foi a que o burro aqui escolheu?

Sobre a música

Sobre a música
por Karl Paulnack

(Discurso de boas vindas aos pais dos calouros no Conservatório de Boston, proferido por Karl Paulnack, pianista e diretor da divisão de música no Conservatório de Boston).

Um dos maiores medos de meus pais, eu acho, era que a sociedade não me daria o devido valor como músico, que eu não seria reconhecido. Eu tinha ótimas notas no colegial, era bom em ciências e matemática, e eles imaginaram que eu seria mais valorizado como médico, químico ou engenheiro do que como músico. Eu ainda me lembro do comentário de minha mãe quando anunciei minha decisão de ingressar numa escola de música. Ela disse “você está DESPERDIÇANDO as boas notas que tirou no vestibular” . De alguma forma, acho que meus pais não estavam muito seguros do valor que a música tinha, de qual era o seu propósito. E olhe que eles ADORAVAM música, e escutavam música clássica o tempo todo. Eles só não estavam muito certos quanto a sua função. Então, deixe-me fala um pouco sobre isso, porque nós vivemos numa sociedade que coloca a música no caderno de “artes e entretenimento” do jornal, e a música séria, do tipo que seus filhos estão por comprometer, não tem nada a ver com entretenimento, e na verdade é o oposto disto. Vamos então falar um pouco sobre música, e como ela funciona.

Os gregos da Antigüidade foram o primeiro povo a compreender como a música realmente funciona. E isto os irá fascinar: os gregos diziam que música e astronomia eram lados diferentes da mesma moeda. Astronomia era vista como o estudo das relações observáveis e permanentes entre objetos externos, e a música era vista como estudo das relações invisíveis, internas, de objetos internos. A música tem a vocação de nos colocar em contato com as grandes e invisíveis peças em movimento dentro de nossos corações e almas, e de nos ajudar a calcular a posição das coisas dentro de nós. Deixe-me dar alguns exemplos de como isto funciona.

Uma das mais profundas composições de nosso tempo é o “Quarteto para o Fim dos Tempos”, escrito pelo compositor francês Olivier Messiaen, em 1940. Messiaen tinha 31 anos quando a França declarou guerra à Alemanha nazista. Ele foi capturado pelos alemães em junho 1940, e cruzou a Alemanha em um vagão de carga para ser encarcerado num campo de concentração.

Messian teve sorte de conhecer um guarda que simpatizou com ele e que lhe arrumou papel e um lugar para compor. Havia ainda outros três músicos no campo, um violoncelista, um violinista e um clarinetista, e Messiaen escreveu seu quarteto tendo em mente estes três músicos em específico. A obra foi apresentada em janeiro de 1941 para quatro mil prisioneiros e guardas do campo. Hoje ela é uma das mais famosas obras-prima do repertório.

Tendo em vista o que a gente tem aprendido sobre a vida em campos de concentração, por que alguém em sã consciência desperdiçaria tempo e energia compondo ou escrevendo música? Quase não havia energia suficiente em um bom dia para achar água e comida, para evitar uma surra, para permanecer aquecido, para escapar da tortura. Por que alguém se importaria com música? E mais: nos campos de concentração havia poetas, músicos e artistas plásticos. Não foi apenas um único fanático como Messiaen, mas muitos, muitos outros criaram arte. Por que? Bem, num lugar onde as pessoas estão preocupadas apenas com a sobrevivência, nas necessidades mais básicas, a conclusão óbvia é que a arte deve ser, de alguma forma, essencial para a vida. Nos campos de concentração não existia dinheiro, não existia esperança, não existia comércio, não existia diversão e respeito, mas existia arte. Arte é parte da sobrevivência. Arte é parte do espírito humano, uma inextinguível expressão de quem somos. A arte é uma das maneiras de dizermos “estou vivo, e minha vida tem significado”.

Em 12 de setembro de 2001 – no dia seguinte ao atentado às Torres Gêmeas – eu morava em Manhattan. Naquela manhã alcancei um novo entendimento de minha arte e de sua relação com o mundo. Às dez horas daquela manhã fui ao piano para estudar, como de costume. Eu fiz isso por força do hábito, sem pensar a respeito. Eu levantei a tampa do teclado, abri uma partitura, coloquei minhas mãos sobre as teclas e em seguida as retirei. Fiquei lá sentado e pensando se aquilo era importante. Não era completamente irrelevante? Tocar piano agora, dado o que acabara de acontecer naquela cidade, parecia tolo, absurdo, irrelevante, sem sentido. Por que estou aqui? Qual o lugar de um músico num momento como aquele? Quem precisa de um pianista justamente agora? Eu estava completamente perdido.

Assim, eu e toda a Nova York, iniciamos a jornada de atravessarmos àquela semana. Eu não toquei piano naquele dia, e de fato fiquei a me questionar seu voltaria tocar piano novamente. E então eu observei como nós atravessamos aquele dia.

Ao menos em minha vizinhança, nós não jogamos basquete ou palavras-cruzadas. Nós não jogamos cartas para passar o tempo, não assistimos TV, não compramos, e certamente não fomos ao shopping center. A primeira ação organizada que eu vi em Nova York, neste mesmo dia, foi o canto. As pessoas cantaram. As pessoas cantaram em frente ao corpo de bombeiros, as pessoas cantaram “Nós iremos superar”. Muitas pessoas cantaram “America the Beautiful”. Que eu me lembre, o primeiro evento público organizado foi o réquiem de Brahms, depois de uma semana, no Lincoln Center, com a Filarmônica de Nova York. A primeira organização pública de pesar, nossa primeira resposta pública a esse evento histórico, foi um concerto. Este foi o início de um entendimento de que a vida poderia continuar. O exército protegeu o espaço aéreo, mas a recuperação foi conduzida pelas artes, e naquela noite, pela música em especial.

Destas duas experiências, eu venho a concluir que a música não faz parte das “artes e entretenimento” tal como caderno do jornal nos quer fazer acreditar. Ela não é luxo, algo supérfluo que pagamos com as sobras de nossos orçamentos, não é um brinquedo, um mero divertimento ou passatempo. Música é uma necessidade básica para a sobrevivência humana. Música é uma das maneiras que darmos sentido a nossas vidas, uma das maneiras de expressarmos nossos sentimentos quando não temos palavras, um meio para compreendermos coisas em nossos corações quando não podemos fazê-lo com nossas mentes.

Alguns de vocês talvez conheçam o tocante “Adagio para Cordas” de Samuel Barber. Talvez você não o conheça pelo nome, mas pode ser que alguns de vocês o conheçam como música incidental para o filme “Platoon”, de Oliver Stone, que passa na Guerra do Vietnã. Se você conhece esta peça de outra forma, você conhece sua incrível capacidade de cortar o coração; ela pode fazer você chorar sobre tristezas que você sequer sabia que possuía. A música consegue se infiltrar em nossa noção de realidade para nos mostrar o que de fato está acontecendo dentro de nós, do mesmo modo que um bom terapeuta faria.

Eu aposto que você jamais esteve num casamento onde não havia qualquer tipo de música. Pode até ser que só tenha tido pouca música, ou que a música fosse realmente ruim, mas aposto que havia alguma música. E algo muito previsível acontece em casamentos: as pessoas se vêem confrontadas como todo tipo de emoção, e então há algum momento musical onde a ação do casamento pára, e então alguém canta ou toca uma flauta ou algo assim. E ainda que a música seja meio capenga, mesmo que não seja de boa qualidade, cerca de trinta a quarenta por cento dos convidados irão chorar por alguns instantes logo após que a música começar. Por que? Os gregos! A música nos permite mover essas grandes e invisíveis peças dentro de nós e rearranjá-las em nosso interior de forma a podermos expressar o que sentimos, mesmo quando não conseguimos colocar isto em palavras. Consegue se imaginar assistindo “Indiana Jones”, “Super-homem” ou “Guerra nas Estrelas” com diálogos, mas sem música? E o que dizer de um dado momento em “ET – o extra-terrestre” onde o crescendo da música faz com que todos na platéia a chorarem no mesmo instante? Eu garanto que se você me mostrasse o filme sem música nada disso ocorreria. Os gregos: música é a compreensão das relações entre objetos invisíveis e internos.

Mas deixe-me dar mais um exemplo, uma história da maior importância em minha vida. Eu devo dizer que eu toquei em quase mil concertos em toda minha carreira até agora. Toquei em lugares que julgava importantes. Eu gosto de tocar no Carnegie Hall, gostei de tocar em Paris e me fez muito bem cair nas graças da crítica de São Petersburgo. Toquei para pessoas que pensava serem importantes, tais como críticos de grandes jornais e chefes de estado. Mas o mais importante concerto de toda minha vida ocorreu num asilo na cidade de Fargo, Dakota do Norte, há uns quatro anos atrás.

Eu estava tocando com um violinista que é um grande amigo meu. Nós começamos o concerto com a Sonata de Aaron Copland, como de nosso costume, que foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial e foi dedicada a um amigo de Copland, um jovem piloto que foi abatido durante a guerra. Nós freqüentemente preferimos conversar com a platéia sobre as peças que iremos tocar do que distribuir libretos com comentários sobre o programa. Mas nesse caso, por conta de iniciarmos o concerto com esta peça, decidimos falar sobre ela depois, e começamos a tocar sem maiores explicações.

Na metade da peça, um idoso sentado logo na frente, numa cadeira de rodas, começou a chorar. Era visível que este homem, que vim a conhecer depois, foi um soldado, pois mesmo com seus setenta e poucos anos estava claro pelo seu corte de cabelo e sua postura de general que ele tinha passado boa parte de sua vida no exército. Achei estranho que alguém caísse em lágrimas por causa de um movimento em específico de uma peça tão específica, mas não era a primeira vez que eu via alguém chorando durante um concerto. Então nós seguimos em frente e terminamos a peça.

Antes de tocarmos a próxima peça do programa, decidimos então falar sobre a primeira e a segunda peça, e descrevemos sob quais circunstâncias Copland a compôs e a dedicatória ao piloto morto. O homem ficou tão perturbado que ele teve que deixar o auditório. Honestamente, achei que não o veríamos novamente, mas, no final das contas, ele foi aos bastidores, em lágrimas, para se explicar.

Eis o que ele nos disse: “Durante a Segunda Guerra Mundial eu era piloto, e eu estava em um combate aéreo quando um dos aviões de minha esquadra foi abatido. Eu vi meu amigo saltar, vi seu pára-quedas aberto, mas os aviões japoneses que estavam nos perseguindo retornaram e metralharam através das cordas do pára-quedas, de forma a separá-lo do piloto, que eu vi cair no oceano, imaginando que o havíamos perdido. Eu não tinha pensado sobre isso por muitos anos, mas durante a primeira peça que vocês tocaram, esta memória retornou de forma tão vívida que pensei estar revivendo tudo isso. Eu não estava entendendo porque isto estava acontecendo, mas agora, depois que você disse que a peça foi escrita em memória de um piloto desaparecido, não havia o que pudesse fazer para agüentar. Como a música faz isto? Como ela achou esses sentimentos, estas recordações dentro de mim?”. Lembrem dos gregos: música é o estudo de relações invisíveis entre objetos internos. Este concerto em Fargo foi o mais importante trabalho que já fiz. Para mim, tocar para este veterano de guerra e ajudá-lo a conectar-se, de alguma forma, com Aaron Copland, a conectá-lo com as recordações de seus amigos perdidos e a lembrar e chorar por seu amigo foi meu melhor trabalho. É por isso que música é importante.

O que se segue é parte do papo que eu terei, dentro de alguns dias, com os calouros deste ano, quando eu lhes darei as boas vindas. A responsabilidade que eu conferirei a seus filhos e filhas é:

Se estivéssemos numa escola de medicina, e vocês estivessem aqui como estudantes de medicina, estudando apendicectomia, vocês deveriam levar seu trabalho muito a sério, porque vocês imaginariam que em alguma hora alguém iria baixar na emergência médica às duas da manhã e caberia a vocês salvarem aquela vida. Bem, meus amigos, algum dia, às oito da noite, alguém na sua sala de concertos e lhe levará uma mente toda confusa, um coração sobrecarregado, uma alma em frangalhos. E dependerá parcialmente de você, do quão bem você faz seu trabalho, se esta pessoa sairá novamente inteira depois do concerto.

Você não está aqui para divertir os outros, você não tem que se vender. A verdade é que você não tem nada para vender; tornar-se um músico não é como distribuir produtos, tal como vender carros usados. Eu não sou “entertainer” – alguém para divertir e distrair – pois minha profissão está mais próxima a de um paramédico, a de um bombeiro e de alguém que trabalha com resgates. Você não está aqui para ser um tipo de terapeuta da alma humana, uma versão espiritual de um quiropata, um fisioterapeuta, alguém que trabalha com seu interior para ver se as coisas estão alinhadas, para ver se conseguimos ficar em harmonia conosco mesmo e ser bom, saudável e feliz”.

Sinceramente, senhoras e senhores, eu espero que vocês não apenas aprendam música; eu espero que vocês salvem o planeta. Se um dia existir neste planeta uma era de bondade, harmonia, paz, o fim das guerras, o entendimento mútuo, o fim da desigualdade, a justiça, eu não espero que isso venha por parte dos governos, do exército ou das grandes empresas. Tão pouco espero que isto venha das religiões do mundo, que juntas parecem ter nos trazido muito mais guerra do que paz. Se existe um futuro de paz para a humanidade, se existe uma compreensão de como essas coisas invisíveis e internas devem ser conectadas, eu espero que isto venha por parte dos artistas, porque é isso o que fazemos. Tanto no campo de concentração, como no atentado de 11 de setembro, foram os artistas que puderam nos ajudar com nossas internas e invisíveis vidas.

Tradução: Leonardo Martinelli

“A diferença entre um músico profissional e um amador, é que o profissional faz por consciência e o amador por intuição”
Alexander Znachonak

Pablo Casals

“Não sou político, sou simplesmente um artista. Mas a questão é definir a arte como um passatempo fora do contexto da vida diária dos homens, ou como um meio para preservar o significado original da existência humana. A política não é tarefa dos artistas, mas, na minha opinião, temos a obrigação de tomar uma clara posição, qualquer que seja o sacrifício que isso acarrete, se a dignidade do homem estiver em jogo.” Pablo Casals

%d blogueiros gostam disto: